CÂNTICO NEGRO
José Régio

(clique para ouvir o poema dito por Pedro Laranjeira)

Vem por aqui!
Dizem-me alguns com olhos doces estendendo-me os braços
e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem:
Vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos...
Há nos meus olhos ironias e cansaços
e cruzo os braços...
...e não vou por ali!

A minha glória é essa
criar desumanidade
não acompanhar ninguém,
que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos.
Se às coisas que eu pergunto em vão ninguém responde
porque me dizeis vós: Vem por aqui!?...

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos arrastar os pés sangrentos
a ir por aí...

Se eu vim ao mundo foi p'ra desbravar florestas virgens
e desenhar meus próprios passos na areia inexplorada!
O mais que eu faço não vale nada!
Como pois sereis vós que me dareis ferramentas, machados e coragem
p'ra eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre nas vossas veias sangue velho dos avós
e move-vos demais o que é fácil...
Eu amo o longe e a miragem!
Amo os abismos, as torrentes, os desertos!

Ide! Tendes jardins, tendes canteiros, tendes estradas,
tendes pátrias, tendes tectos,
e tendes livros e tratados e filósofos e sábios...

Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a como um facho a arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios!

Deus e o Diabo é quem me guia!
Mais ninguém!
Todos tiveram pai!
Todos tiveram mãe!
Mas eu que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo!

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Não me peçam definições.
Ninguém me diga:
Vem por aqui!

A minha vida é um vendaval que se soltou!
É uma onda que se alevantou!
É um átomo a mais que se animou!

Não sei por onde vou!
Não sei p'ra onde vou!
Sei que não vou por aí!

PEDRO LARANJEIRA