A ESPERANÇA, OS CANHÕES E A LUSITANIDADE
Jorge Castro

e lá vamos outra vez contra os canhões
contra as tangas os burlões e tudo a sete
esgravatando em magra bolsa pelos cordões
onde dorme o triste pó e a cotonette

sai imposto e mais imposto à tripa forra
aldrabice já lá vem bem mais de um cento
faz pensar que ir parar a uma masmorra
será mal menor e traz-nos mais sustento

entretanto é trabalhar ó vilanagem
quanto mais velho melhor com mais afinco
e p’ra melhor sustentar a gandulagem
sendo pouco os sessenta vão mais cinco

vê lá tu meu teso que não dobraste
a cerviz por não seres um vil lacaio
hás-de curvar-te agora quanto baste
pela força dos bicos de papagaio

e - cautela! - não vás por aí finar-te
num escritório ou atracado a algum torno
que o estado à família há-de cobrar-te
p’la armazenagem do teu corpo algum estorno

pois não pára a fuçanga desmedida
desta troupe que nos condena à dieta
que não medra em ponta de obra conhecida
mas que aldraba tanto tolo c’o esta treta

e vogamos pasmando espapaçados
neste lodaçal de petas e cinismos
futebol p’ra domingos bem passados
… pouco falta p’ra nos darem catecismos

já que sobram futebóis e muitos fados
tiazinhas de viver parvo e medonho
abastança de dinheiros emprestados
para comprar e vender até o sonho

mas enfim… p'ra animar um pouco a tropa
ainda não somos a cauda do planeta
e havemos de chegar a essa Europa
nem que seja a rastejar e sem ter cheta

PEDRO LARANJEIRA