NUA
Jorge Casimiro

nua
quero-te nua
nua como um gesto subtil
como um movimento curvilíneo
                                          inacabado

nua
como um campo de lilases
numa noite sem estrelas

nua
corpo completo:
                      vertigem e abismo
sodoma e gomorra
princípio sem fim

nua eu te quero
com uma nudez mais nua
que a nudez mais completa
                                 e pura

nua
por um momento quase nada
quase bruma
quase vazio
quase faúlha
quase fogo
quase fuga
quase inferno
quase loucura

nua
mais nua que a neve branda no deserto
quando o deserto floresce no inverno para lá do espelho
e tu ficas nua como uma miragem de esboços latentes
aguarela de desassossego
nua de todos os contrastes
vazia de todas as distâncias
maré ausente
maré vazante

nua assim eu te sonho
nua assim eu te quero
nua assim
           eu te espero

PEDRO LARANJEIRA