ALI-BABÁ
Jorge Casimiro

na teia sustenida dos dias
bafejo a transparência da janela entediada

harpa desafinada rompo a tensão superficial da vidraça
cruzo a vertigem do salto
e troco a cadência aérea ritual das asas
p'lo arrasto emaranhado circunflexo dos passos

sucumbo ao chumbo da alma
de pés juntos esbracejo os contrapesos pesados
                                                      dos equívocos adiados
e mais um rosário de retrógrados contratempos
                                                 insistentemente presentes
que me trazem p'la trela
                                    na fuga da ausência

aos diáconos sovo-lhes o pêlo
sorvo-lhes o tutano
e a batina
e com as mãos-cheias de cabelos que arranco à humanidade
encho as almofadas em que repouso
                                              a sono solto

insípidas margens deste rio torto
em que navego à bolina
contrariando o sopro vegetativo
de monções contrárias
contraditórias
emoções alienígenas
alienadas
aleatórias
alienantes
ali-e-na-tó-rias
ali-babá sem gruta nem tesouro
nem xerazade nem mágica nem sigla nem senha nem sonho
nem torre nem minarete
no cenário inóspito e grotesco
deste medo errante
de dar um passo em frente
de falhar um passo em falso adiante
e desencantar um mundo obtuso
                              estranhamente afinado
                                                       em falsete

PEDRO LARANJEIRA