(clique para ouvir o poema dito por Pedro Laranjeira)

O MOSTRENGO
Fernando Pessoa

O Mostrengo que está no fim do mar
na noite de breu ergueu-se a voar.
À roda da nau vou três vezes;
voou três vezes a chiar e disse:

- Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo,
meus tectos negros do fim do mundo?...

E o homem do leme disse tremendo:
- El-Rei D. João Segundo!

- De quem são as velas onde me roço
de quem as quilhas que vejo e ouço?...

Disse o Mostrengo e rodou três vezes,
três vezes rodou imundo e grosso.

- Quem vem poder o que só eu posso
que moro onde nunca ninguém me visse
e escorro os medos do mar sem fundo?...

E o homem do leme tremeu e disse:
- El-Rei D. João Segundo!

Três vezes do leme as mãos ergueu,
três vezes ao leme as reprendeu
e disse no fim de tremer três vezes:
- Aqui ao leme sou mais do que eu!
Sou um povo que quer o mar que é teu!
E mais que o Mostrengo que minha alma teme
e roda nas trevas do fim do mundo,
manda a vontade que me ata ao leme
d ' El-Rei D. João Segundo!

PEDRO LARANJEIRA