O MENINO DA SUA MÃE
Fernando Pessoa

(clique para ouvir o poema dito por Pedro Laranjeira)

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece
De balas trespassado
- Duas de lado a lado -
Jaz morto, e arrefece...

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora... que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O Menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa, a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Doutra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.

PEDRO LARANJEIRA