DIA DO PAI      

Nem tudo em dia de pai são presentinhos de amor
às vezes é água-vai, do outro lado da dor...
É a saudade
um lamento
a idade
e também o sofrimento
a paz-podre da maldade
a cegueira, o temperamento...
é, pois é... o casamento!...
A paixão, a juventude
( - É ter filhos, minha gente, é ter filhos mesmo assim!)
depois, um dia, a ilusão
de que talvez nada mude
e vê-lo mudar no fim!
É pois é, o casamento! O preço que a vida cobra!
Caprichos leva-os o vento
e os putos ficam de sobra!

O lar está desfeito - é bem feito que o esteja.
Só faltou foi respeito e a criança que o veja
e que o sinta no peito:
que não há direito...
que não há direito!

Os meus meninos são d'ouro
eu sou pai de mau agouro
e toda a culpa foi minha...
Foi o mundo, foi o vício
a falsidade, o desejo
e tantos actos nocivos:
Quando os pais não têm pejo
nascem orfãos de seres vivos...

Sou um pai de mau agouro
sou um produto da vida
sou a cova do tesouro
sou a promessa perdida
sou aquilo a que o Sistema
chama um homem mal casado
e a nossa Lei logo após transforma em divorciado:

- Casais à direita - meninos à esquerda.
- O egoísmo à espreita - as crianças à merda!

Só faltou foi respeito
e consciência da perda;
as crianças não sobram,
não se mandam à merda!

... resta a sombra azul desta saudade,
resta pensar no dia que há-de vir
... é humano!...

Resta fingir
que pode nem ser verdade

esta coisa que trago na cabeça e não se esvai:

que os meus filhos, se calhar,

desta vez

nem sequer vão fazer Dia do Pai!

...mas mesmo que seja assim
e amá-los faça sofrer
guardarei o meu tesouro -
- pago o preço do agouro,
o carma que a vida cobra,
venha ele donde vier:
que não são filhos de sobra,
são filhos que eu fiz nascer!

in "PULSAR" © PEDRO LARANJEIRA