PARTE, DRAGÃO TANGÍVEL  

Foi um longo esquecimento de mim próprio
que te dei tantos anos sem saberes...
foi a mão com que cresceste a porto salvo
na segurança de nenhum perigo que espreitasse.

Foi a tua infância de mulher
despertar da consciência
o nascer de penas nessas asas
alvorada de experiência.
Foi o desabrochar fascinante da flor que tinhas escondida
no fundo da tua gruta
filha anímica de grandeza no teu potencial
que já estava nascida mas não se podia abrir
no meio do pantanal
de tantos filhos da puta
que te queriam consumir...

Foram anos de silêncio mal paridos
teu pai de vida, teu amante e teu amigo...
...não os queria ver perdidos!

És adulta agora, irmã!
Tens garras e presas de marfim,
tens sangue frio de gibóia atenta.
Tens-me também a mim...
naquilo que ainda resta
do que o alento me inventa
e pouco mais que mão-cheia,
embora louca e sedenta,
de uma ilusão que não presta!
Dei-te a força que suguei ao Universo que é meu.
Mostrei-te o que é ser cruel e não roubei nada teu...
Fiz tropeçar os teus medos na surpresa de os venceres
e enganei-te as fraquezas para nunca as perceberes.
Desafiei-te a coragem de te afirmares atleta
campeã de qualquer coisa que a tua mente quisesse!

Fiz de ti o que sonhei se uma filha me houvesse
O trabalho ficou feito - e eis-me no fim da metal...

Na boca em silêncio a prece
que te dirijo qual seta
ao alvo que fiz mulher:

Parte, dragão tangível,
para a vida que mereces!
Só se sonha o que se quer
e és muito mais que pareces...
Vive os anos que vais ter
faz-te assim futuro incrível!
...e deixa morrer em mim
este destino impossível!