Um menino muito triste, muito pobre e muito roto
com olhos de grande fome e mãos rasgadas de frio
brota por entre o sorriso da boca de mil vovós
e entra pouco entendido nas orelhas de avidez
com que as crianças consoam em noite de falso amor.
Sempre histórias com meninos todos feitos de desgraça
para aquecer o natal da iniquidade infantil
sempre historias com meninos de quem a vovó tem pena
"Coitadinhos ! Pobrezinhos ! A viver em barracões
e se calhar sem comida ou sem roupa contra o frio ! "
E estes pedaços de asno com meio metro de altura,
que vestem calor eléctrico e birram não comer sopa,
põe uns olhos palermas de dó por aqueles meninos
que a vovó viu a chorar por um pedaço de pão...
e repetem "Coitadinhos!" com as bocas lambuzadas
de chocolate e bombons que o pai natal lhes deixou!
...e vão depois p'rás caminhas "fazer ó-ó, meu amor!"
agarrados ao ursinho.