REFLEXÕES SOBRE A ROSA E A INUTILIDADE    

De que vale falarmos sobre rosas
em relação à inutilidade que pode ser certeza,
se uma e outra coisa são a mesma,
se por triste que seja admiti-lo,
não há qualquer diferença entre as permissas do tema?...
Quão importante pode ser a rosa,
mesmo sonhando escaladas caule acima
na ignorância serena de todos os espinhos,
na esperança sempre tão inconsequente
da presença da rosa como meta,
pés assentes na frase-falsidade
que confere à flor a importância de tudo além de tudo...
se depois de ter a rosa o sonho se desfaz
no desabrochar da verdade?...
Talvez que a distância da escalada ao destino,
no princípio do caule e dos espinhos,
não mais nos dê que uma visão desavisada
que esconde parasitas e outros bichos daninhos...
ou talvez que a rosa se envaideça lá em cima,
longe, altiva, mentirosa,
a enganar-se a si própria com ares de flor airosa
e pétalas avermelhadas
em cosméticas de queda ...
ou ainda que nos pareça perfeita
e depois encontremos, afinal,
o pulgão que lhe suga as partes doces,
o bicho a mais que a consome,
escondido entre as dobras coloridas,
fora da vista do sonho que a procura
e só vê peste depois da possessão...
Este tema é impossível,
porque em si encerra a verdade,
também indiscutível,
das lições que a vida ensina
e não nos valem a pena,
se formos uns sonhadores
a querer as metas de cima!...

Aristotelicamente, a felicidade
vive sempre em meio-termo,
mas isso não é verdade
nem na Grécia nem aqui
nem na História nem nas odes:
os heróis vivem em extremos
e os atletas também!
É esse o carma dos céus,
E o ensinamento dos deuses.
Portanto colha-se a rosa
pra consumi-la depois
beba-se a vida num seio,
que cada mulher tem dois...
e nem que os bebesse todos
numa cruzada bendita
eu conseguia matar
a minha sede infinita!
Rosa a rosa, caule a caule,
espinho sim outro não,
vou desfolhar as mulheres
que me passarem à mão
sem nunca mais as sonhar
na busca de uma ilusão!
Dia a dia, passo a passo,
corpo a corpo, braço a braço
e o êxtase em cada orgasmo
de ser só aquele momento
a iludir o marasmo,
a contrapor sofrimento!

...e se o destino quiser jogar a vida ao acaso
que o seja durante o sono sem que ninguém faça caso;
só assim, só de surpresa, sem aviso, sem esperar,
aceitarei o milagre, se chegar do pé pra mão...
…de finalmente acordar
aquém desta solidão!