PÁGINA PESSOAL DE PEDRO LARANJEIRA 30 ABRIL 2005

JOSÉ AFONSO, O HOMEM E O ARTISTA

Sessão com Manuel Alegre, Francisco Fanhais, Renato Mendonça e Pedro Laranjeira, organizada pelo Grupo Promotor da semana cultural LEMBRAR JOSÉ AFONSO, no Teatro da Raínha, Caldas da Raínha.

Contaram-se histórias do Zeca,  partilhadas com uma sala cheia por aqueles que as viveram com o artista em vida.

Francisco Fanhais cantou ao longo de toda a noite, nos intervalos das várias histórias que foram sendo contadas, e acrescentou algumas também.

Durante duas horas e meia, uma plateia interessada ouviu e participou.

 

Fátima Lino, Marina Ximenes e Rosa Cerqueira, activas organizadoras dos acontecimentos culturais mais interessantes que têm acontecido nas Caldas, convidaram-me a participar na sessão, assim que souberam que eu tinha conhecido pessoalmente o Zeca Afonso e tinha histórias para partilhar.

O que não esperava era que me pedissem para apresentar o espectáculo... um minuto antes do início! Mas tudo bem... lá fomos para o palco...

Fanhais cantou e Manuel Alegre foi o primeiro a falar. A tristeza de o exílio o ter forçado a estar fora do país no dia da queda do antigo regime não lhe diminuiu na memória a gratidão das recordações de José Afonso e do seu papel como porta-voz do descontentamento.

Ele próprio o era de há muito, pela palavra e pelos poemas. Ainda me lembro da poesia de Manuel Alegre que eu passava no Rádio Clube de Moçambique pela voz de Adriano Correia de Oliveira, quando tudo era proibido e possuir aqueles discos era quase um mercado negro...

Como o poeta de abril falou no Grândola Vila Morena, peguei na deixa e contei a história do Coliseu, em março de 74, onde estive a fazer a reportagem (que não passou na censura da Renascença) de um encontro notavel de artistas como Carlos Paredes, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e o próprio Zeca, que terminaria num apoteótico entoar do Grândola por todos, artistas e público, até que a toada alentejana se transformou subitamente no Hino Nacional... foi uma das mais impressionantes manifestações espontânias a que assisti em toda a vida!

Estavam nessa noite cerca de seiscentos agentes da PIDE/DGS entre o público do Coliseu... e nós sabíamos! Devo ter entrevistado alguns, presumo, nas dezenas de entrevistas que fiz pela plateia de pé, enquanto no palco se cantava a Grândola...

Foi nessa noite também que o Fernando Tordo me apresentou o poeta que na minha lista vem logo a seguir a Camões: José Carlos Ary dos Santos.

Portanto, nas Caldas, três décadas depois, foi disto que todos falamos, para uma assistência cheia de gente que então nem tinha ainda nascido.

Particularmente tocantes foram as histórias de um amigo de geração, que foi íntimo e pessoal do Zeca em vida: Renato Mendonça contou coisas daquelas que só se vivem e só se sabem quando se está mesmo perto de alguém, com a mesma simplicidade que o artista tinha, com a mesma humildade (leia-se humanidade) que o próprio Zeca transmitiu àqueles que mais de perto o conheceram.

Foi precioso... durante o café e bolinhos que a organização ofereceu depois, uma espectadora disse-me: "Tinha uma imagem completamente diferente do José Afonso, não o imaginava como uma pessoa tão simples e humilde, tão igual àqueles para quem cantava..."

Em nome da Associação José Afonso, Helena Carmo caracterizou então a iniciativa do Grupo Promotor da semana cultural LEMBRAR JOSÉ AFONSO, constituído pela Fátima Lino, Rosa Cerqueira, Marina Ximenes, Maria José e Tojal Parreira, que durante uma semana fizeram ir às Caldas quem conheceu e quem quis conhecer o artista já desaparecido mas que viverá sempre na memória dos portugueses..

No fim, estava eu a pensar que aquilo tudo deveria acabar com o Grândola... mas, sinceramente, com o Fanhais ao meu lado e desafinado como sou, não tive coragem para começar a cantar, envergonhei-me... mas a noite foi salva por um dos poetas do grupo da Poesia Vadia, que estava presente: o Policarpo Nóbrega fez honra ao que, provavelmente, estava no pensamento de todos nós e começou a cantar Grândola Vila Morena...

Um segundo depois toda a sala o fazia. Manuel Alegre deve ter-se sentido noutros tempos e noutros lugares e abraçou o Fanhais por um lado e a mim pelo outro... logo outros braços se nos juntaram e repetimos ali o comovente momento do Coliseu há trinta e um anos atrás!...

Uma noite a não esquecer! Mais uma pedrinha para o baú dos orgulhos das Caldas da Raínha!

Programa:  

Zeca Afonso, andava de mãos dadas com a liberdade.

A palavra, o músico e o estilo eram livres e inovadores.

O Zeca era irmão dos oprimidos, um lutador contra a opressão.

Lembrar Zeca Afonso é fruir a liberdade. ( Isabel Sá Lopes)

Manuel Alegre, poeta da liberdade. A sua obra é percorrida pela Ideia de Ser Livre, pela busca de um respirar sem opressão. Antes e depois de abril, continuamos a contar com ele, como homem e poeta da busca desassombrada e permanente de melhorar a condição de se ser livre. ( Isabel Sá Lopes)

Programa : 21:30 Início com:

Palavras e música de Francisco Fanhais

        Intervenção de Manuel Alegre

Canções, Francisco Fanhais

        Intervenção de Renato Mendonça

Canções, Francisco Fanhais

        Intervenção de Pedro Laranjeira

Canções, Francisco Fanhais

        Intervenção de Manuel Alegre

Canções e Convívio

Grupo Promotor da Semana Cultural LEMBRAR JOSÉ AFONSO

Maria de Fátima Lino, Maria José Monteiro, Marina Ximenes, Rosa Cerqueira, Tojal Parreira

COLABORAÇÃO GRÁFICA : Alexandre Castro; Carlos Mascarenhas; Paulo Costa PATROCÍNIOS: Câmara Municipal de C.R.; Companhia de Seguros GLOBAL; E. Leclerc; Sindicato Professores da Grande Lisboa; Sindicato Trabalhadores Administração Local APOIOS: Ana Sobral; Alberto Pereira; Armando Correia /Ivo Ximenes Correia; Associação JOSÉ AFONSO; Escola Superior de Arte e Design; Fátima Lino; Flor Óbidos; Joaquim António Silva; Victor Rocamaro ; Papelaria VOGAL; SIR - Os Pimpões; Teatro da Rainha.

lembrar    josé afonso

Participação de

Manuel Alegre,
Renato Mandonça, Pedro Laranjeira
e Francisco Fanhais

JOSÉ AFONSO, O Homem e o Artista

30 de ABRIL de 2005 - 21:30h

Local: Teatro da Raínha (ex-UAL), Caldas da Raínha

Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de maio de 1936 em Águeda. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi um activo dirigente estudantil. Apoiou a candidatura do General Humberto Delgado. Foi fundador do CITAC - Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC - Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, campeão nacional de natação e atleta internacional da Associação Académica de Coimbra.

        Dirigiu o jornal A Briosa, foi redactor da revista Vértice e colaborador de Via Latina.

        A sua tomada de posição sobre a ditadura e a guerra colonial levam o regime de Salazar a chamá-lo para o serviço militar em 1961, sendo colocado nos Açores, onde tenta uma ocupação da ilha, com Melo Antunes. Em 1962 é mobilizado para Angola, onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar. É preso pela PIDE em Luanda, em 1963. Na cadeia conhece escritores angolanos como Luandino Vieira. Colocado com residência fixa em Coimbra, acaba por passar à clandestinidade e sair para o exílio em 1964.

        Passa dez anos exilado em Argel, onde é dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num símbolo de resistência e liberdade.

        Os seus dois primeiros livros, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) são apreendidos pela censura, mas passam de mão em mão em cópias clandestinas, manuscritas ou dactilografadas. Poemas seus, cantados por Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, tornam-se emblemáticos da luta pela liberdade. Regressa finalmente a Portugal em 2 de maio de 1974.

        É Vice-Presidente da Assembleia da República desde 1995 e membro eleito do Conselho de Estado. É sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências desde 2005.

        Tem inúmeros livros publicados, sobretudo de POESIA.

Renato de Matos Mendonça Nasce no Barreiro em 1935. Eletrotécnico aposentado da PT. Cidadão de Caldas da Rainha desde 1957 com 42 anos.

Opositor, como tantos outros cidadãos Portugueses ao regime político caído em 25 de abril de 1974.

Estabeleceu, desde a década de 60, uma fraterna amizade com JOSÉ AFONSO, que se foi cimentando com o tempo até à morte do cantor.

Francisco Fanhais Nasce a 17 de maio de 1941, na Praia de Ribatejo. Aos 10 anos entra para o Seminário de Santarém, acabando o Curso de Teologia em 1964. Em 1965 é ordenado padre e começa a dar aulas. Em 1969 vai como professor de Moral para o Barreiro.

É aí que a sua vida começa a mudar de rumo " … e começa a cantar para denunciar a realidade que o cerca". Conhece JOSÉ AFONSO que o incentiva e de quem mais tarde fica amigo. Grava dois discos e canta Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner, António Aleixo e Llorca. Passa então a integrar o grupo de cantores com uma viola na mão. Em 1971 é proibido de exercer as ordens, de cantar e de leccionar, por não estar consonante com as posições do governo. Vai para França, continuando a sua actividade como cantor e opositor ao regime. Em 1974, já em Portugal, participa em inúmeras sessões de apoio e em espectáculos de solidariedade com Timor - Leste, com a Frente Polisário, a Nicarágua, S. Salvador, entre outras. Em 1975, com José Afonso e o cineasta Luís Filipe Rocha participa nas campanhas de dinamização do M.F.A., no nordeste de Portugal. É um dos sócios fundadores da Cooperativa de Animação Cultural ERA NOVA. Em 1995 recebe a Ordem da Liberdade e participa, com Manuel Alegre e João de Melo em colóquios.

Pedro Laranjeira, kota a chegar aos 60, nascido em Viseu no dia em que caiu a bomba sobre Nagazaki. Jornalista, 43 anos de Rádio e 33 de Imprensa, instáveis flutuações de trabalho: fotógrafo profissional, dirigente desportivo, massagista e terapeuta de medicinas alternativas, técnico de informática, webdesigner, etc... a profissão de amor é mesmo o Jornalismo.

Escrevo poesia desde 1960, publiquei um livro em 2004 (PULSAR) e sairá um segundo dentro de um mês (GUIDA LOYO, in memoriam...) e tenho uma página de poesia na net, em www.laranjeira.com.

Organizo e participo em Saraus de Poesia há 40 anos.

Como jornalista, corri mundo, fui desde correspondente de guerra a crítico de cinema; o meu trabalho mais conhecido, a reportagem sobre o 25 de abril, comentada pelo Adelino Gomes e editada em disco, feita no dia, no local, integrado na Coluna do MFA comandada pelo Capitão Salgueiro Maia. Era então Repórter de Exteriores do Programa "Limite" (Rádio Renascença) que tocou a senha "Grândola Vila Morena" para o Movimento das Forças Armadas.

Conheci pessoalmente o Zeca Afonso e o José Carlos Ary dos Santos.

Continuo a ser ocasionalmente jornalista freelance, como fui metade da vida (e era nessa data), e neste momento a minha profissão é a que o estado descreve nobremente como "desempregado"... portanto vou vadiando na Poesia Vadia do grupo Ler Devagar e pensando seriamente no que hei-de fazer nos próximos 60 anos, agora que estou a chegar ao fim da primeira metade da minha vida...

Num gesto bonito, a organização ofereceu um conjunto de lembranças aos participantes: um azulejo em baixo-relevo para recordar a efeméride, gravado dos dois lados - muito bonito. Também uma planta autêntica, em terra bem adubada e prontinha a habitar o nosso jardim (aquela organização é inexcedível: podiam ter-nos dado um malmequer, que se calhar alguém já tinha lá em casa, ou uma tulipa, ou outra coisa banal assim... mas não, foi um rosmaninho, que ninguém tem portas-dentro, de certeza - estou mesmo feliz com este presente, que já vive juntinho à minha relva de preguiçar)...

Depois, fizeram para nos oferecer, um cravo em cerâmica, num "bouquet" de papel liso sem luxos, como convinha ao espírito da ocasião e à simplicidade da nossa presença: uma daquelas coisas para guardar com carinho!

Toda a sala foi presenteada com bandos de passarinhos de papel, embuídos de tradições orientais e bicos apontados à felicidade!

... e então, sucedeu uma coisa que me comoveu: uma anti-fascista que estava presente e tinha sido hóspede das prisões doutros tempos, veio dar-nos uma rosa encarnada a cada um!... Obrigado... ...DEVÍAMOS TER SIDO NÓS A DAR-LHE UMA A ELA ...!

Grata recordação que guardo desta noite foi ter conhecido Francisco Fanhais.

A primeira vez que ouvi falar dele era o Padre Fanhais e apareceu como uma das primeiras vozes que usaram a canção para gritar uma mensagem de revolta, juntamente com Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Foi em 1969 que comecei a passar os discos dele na Rádio, então em Moçambique... e só hoje, mais de 35 anos depois, o conheci!

Ofereceu-me um CD, ofereci-lhe o meu livro e espero ter somado mais uma relação de amizade à minha riqueza de vida...

     foto pedro laranjeira


© PEDRO LARANJEIRA

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