Página Principal   PÁGINA PESSOAL DE PEDRO LARANJEIRA Indice de Notícias 1 Setembro 2007

ANGOLA: o futuro

Pedro Romão

o jovem à procura de um destino colectivo

Com 27 anos, Pedro Romão integra uma nova geração de quadros angolanos que vai surgindo em dissidência com o poder instituído. Dirige, com Fernando Macedo, a Associação Justiça Paz e Democracia (AJPD) e estudou Direito em Portugal.

por Pedro Laranjeira

Pedro Romão

Pedro Romão

Descobri-o em consequência de uma longa conversa com um activista angolano, Luiz Araújo, que saiu publicada na última edição da "Perspectiva". Foi, portanto, a Luiz Araújo que agora coloquei também a pergunta sobre este seu companheiro de luta: "Quem é Pedro Romão?" - eis o testemunho:

Luiz Araújo - Ele é, juntamente com outras pessoas desta geração, um peão para o futuro de Angola, tem uma postura ética baseada em conceitos fortes de justiça social, que aspira a uma maior dignidade de vida para o povo angolano, que lhe garanta direitos humanos e acesso à justiça. É um potencial líder do nosso futuro, rebelde e inconformado, animado de fé na mudança, de que vai ser um dos protagonistas. Não me repugnaria nada ter um Presidente da República como ele, com a juventude, lucidez, serenidade, capacidade de sentir indignação perante o injusto e inteligência para tratar das questões mais complexas.

Pedro Romão, porém, não aceita este retrato. Pediu-me repetidamente que não o caracterizasse como "futuro líder", porque não aspira a qualquer forma de protagonismo ou de poder, quer apenas, de suas próprias palavras, "ser um bom profissional da advocacia e um cidadão que responde ao apelo cívico de contribuir modestamente para a edificação dum Estado socialmente mais justo, mais próspero e mais respeitador dos direitos e liberdades fundamentais".

Durante a nossa conversa, percebi a sinceridade desta posição. Contributo sim, protagonismo não. Aliás, segundo uma notícia divulgada pela "Human Rights Watch", Pedro Romão chegou a ser agredido fisicamente pela polícia em 2000, o que quer dizer que já sofreu pessoalmente às mãos do regime... mas não o soube da sua boca - não referiu nenhuma acção de que tenha sido pessoalmente vítima, mas apenas as que acontecem no seu país.

Comecei por lhe perguntar que ideias tem para o futuro de Angola...

Pedro Romão - Preocupa-me que Angola seja hoje um país que caminha sem norte, caminha com uma liderança que revela não estar preocupada com o futuro dos angolanos, apenas com o seu próprio futuro, desse grupo restrito dos que governam.

Saímos de uma guerra há cinco anos e há hoje um discurso generalizado por parte do poder em como as coisas estão bem. O facto é que a vida em Angola continua a ser dramática. O sistema educativo está estrangulado, é de muito baixa qualidade, o sistema de saúde é precaríssimo, tal como o emprego, e a habitação é dos nossos maiores problemas. O governo foi incapaz, até hoje, de dar prioridade à educação como a alavanca capaz de projectar o país para o futuro. É evidente que, face a este quadro sombrio, tenho que ter uma postura atenta aos valores cívicos, uma postura de inconformismo face à situação, por ver que apenas um grupo diminuto de cidadãos angolanos tem acesso a esses privilégios.

PL - Mas se há tanto dinheiro em Angola, para onde é que vai esse dinheiro?

PR - Dantes havia uma justificação: era a guerra, que agora á não existe. Era perfeitamente possível demonstrar-se já uma linha de rumo, um caminho novo, diferente, com os dinheiros que o país arrecada, nomeadamente do petróleo e dos diamantes. Os actuais governantes têm muitos erros, tornaram-se corruptos, tornaram-se egoístas, tornaram-se insensíveis. Face a isso só há uma solução: têm que se injectar novas ideias, que só podem aparecer com capital humano novo, têm que se abrir espaços de intervenção a pessoas que nunca participaram na governação do país. Durante trinta anos, os dois vectores da situação de Angola, o MPLA e a Unita, têm governado e continuam a governar com as mesmíssimas pessoas, as mesmíssimas ideias. Cultivaram determinados vícios que os cegaram absolutamente.

PL - Quais vícios?...

PR - A corrupção, o egoísmo, a insensibilidade, a fixação no próprio umbigo... e não conseguem desfazer-se dessas ideias para olharem para o país, até para democratizarem os próprios Partidos. Esses Partidos têm que mudar, têm que se reformar, têm que abrir espaços para que novas ideias possam ter expressão, para que possam ser alavancas que projectem Angola para os novos tempos. Tanto a Unita como o MPLA são Partidos com procedimentos autoritários, ditatoriais. Na própria Unita continuamos a assistir à expulsão de militantes por expressarem opiniões diferentes da corrente maioritária do Partido.

PL - Diz-se que José Eduardo dos Santos teria vontade de entregar o poder ao filho...

PR - Não comento, acho que isso é pura brincadeira!

PL - Poderá haver alguma combustão interna no MPLA que conduza à mudança, ou terá que ser um esforço exógeno?

PR - Existe uma juventude muito bem formada no seio do MPLA, tenho muitos amigos no seio do Partido, que sei que só circunstancialmente se calam, porque estão condicionados a ascender nos cargos em função de obediência cega, mas não estão dispostos a vender durante toda a vida aquilo em que acreditam, só estrategicamente o fazem, sei disto por conversas que tenho tido - não posso, obviamente, dizer quem são, mas são amigos meus que estão no MPLA e vão contribuir para a sua regeneração.

A mudança passa pela consolidação de um sistema judicial que não dependa do estado, só assim se constrói um estado de direito.

A apropriação ilícita dos dinheiros do estado por aqueles que governam, a má distribuição da riqueza, a governação sem responsabilização é a causadora da inércia actual do estado angolano.

PL - O que é que pode, então, despoletar a mudança?

PR - Principalmente a sociedade civil. A força da sociedade civil. As organizações cívicas estão a tornar-se cada vez mais fortes. É preciso também que a comunidade internacional não esmoreça no seu apoio a estas organizações. Portanto, primeiro a sociedade civil, depois a solidariedade internacional. Assim se gera uma consciencialização das pessoas, que conduzirá ao despoletar de outro processo, que são as eleições.

PL - Que não têm acontecido...

PR - Mas que vão acontecer, tarde ou cedo! Hão-se realizar, necessariamente! O pilar da mudança em Angola passa também por eleições periódicas e regulares. Porque o que vai acontecer é muito simples: quem for eleito, ou trabalha com verticalidade, ou daí a quatro anos não volta a sê-lo. A manipulação não poderá ser eterna, pode existir nas primeiras ou até nas segundas eleições, mas não mais. Não aconteceram durante trinta anos porque estivemos em guerra, e não aconteceram nos últimos cinco anos porque parece ter havido o consenso de que o país merecia algum tempo de preparação, porque foram trinta anos de guerra, intensa e sangrenta.

PL - E qual é a atitude do MPLA e da Unita quanto à realização de eleições?

Pedro Romão

PR - Eu penso que estão ambos empenhados e comprometidos em que se realizem. O MPLA provavelmente a protelar mais, porque tem a percepção de que há um desencanto e uma insatisfação generalizada por parte do povo. Mas ambos se têm preparado para o acto, isso é um facto.

PL - Há muitos angolanos, como o Pedro Romão, a obter formação no estrangeiro para poderem eventualmente intervir no futuro de Angola?

PR - Seguramente, aquilo que eu estou a fazer é preparar-me para intervir, e quero intervir de um modo acutilante e empenhado no meu país, quero contribuir para que seja um país melhor, mas é evidente que não tenho nenhuma ambição de liderança, não tenho. Quero contribuir como um bom cidadão, não abdicar, obviamente, do meu sentido de cidadania, do meu sentido de missão, porque julgo que posso contribuir para que o meu país avance - e há muitos angolanos na minha condição, que se têm formado e que estão determinados a contribuir para que país possa andar para a frente.

Pedro Romão

PL - De que é que o José Eduardo dos Santos teria mais medo, neste momento?...

PR - Deixar o poder. Deixar o poder! O poder, além de corromper, vicia! Quando olho para as oportunidades que o José Eduardo teve ao longo de todo este tempo em que governou Angola, fico com a percepção de que se viciou de tal modo pelo poder que não se consegue imaginar sem ele!

PL - Mas é pelo poder ou pelo benefício económico?

PR - Não faço a destrinça se é pelo poder ou pelo benefício económico, porque o poder, no contexto actual, do José Eduardo, significa exactamente a mesma coisa: o poder que ele detém é o poder total, absoluto, que inclui o poder político, o poder económico e mais: o poder militar e o poder cultural. Quando se impõe ao povo preocupar-se, não com o dia de amanhã, mas com o dia de hoje, para ter o que comer, para ter o que vestir, para ter um tecto onde dormir, está-se a impor uma cultura de miséria tal, que é impossível sonhar com um país melhor!

PL - Há angolanos que dizem que gostavam de o ver à frente dos destinos do país...

PR - É pura brincadeira, não comento, é evidente que não! Quero ser um bom profissional de advocacia, tenho uma paixão pelo direito, como gosto também de filosofia, gosto de reflectir, de escrever, contribuir com reflexão, contribuir eventualmente ao nível do sistema da educação.

No plano político, o que me realiza é continuar o meu empenhamento como activista, defendendo a elevação da cultura de respeito pelos direitos humanos. Quanto a outros voos políticos, não os alimento. Eu penso o seguinte: o meu país precisa de mais cidadãos que alimentem menos a ambição de cargos políticos mas que estejam comprometidos com um empenhamento cívico. Angola precisa agora de fazer um longo caminho de paz e isso significa haver cidadãos que ao nível da sociedade civil consigam passar esse discurso, de não alimentar a ambição política, mas sim a ambição cívica de contribuírem como simples cidadãos para que o país vá para a frente, sem que eles tenham que ser os protagonistas. Confesso que me daria por feliz se me visse nesse papel, de um cidadão que pudesse, com o seu saber, com a sua vontade, com a sua determinação, contribuir para uma Angola melhor.

PL - Acredita numa revolução sem armas?

PR - Acredito. Eu não tenho medo de usar a palavra revolução, embora prefira dizer que precisamos de uma ruptura. Aqueles que mandam hoje em Angola estão de tal modo determinados a continuar a mandar nos mesmos moldes, que só a determinação de uma ruptura com os status quo nos pode levar à mudança. É necessária uma ruptura, porque é impossível construirmos uma Angola diferente, democrática, uma Angola respeitadora dos direitos e das liberdades fundamentais e onde prevaleça o estado de direito se não mudarmos radicalmente a cultura vigente, a cultura de impunidade, a cultura de que quem tem poder é que manda e faz como bem entende. Para alterar isto é preciso provocar uma ruptura, por isso queremos, sim, revolução, mas essa revolução, essa ruptura, tem que ser feita por um método diferente daquele com que foram feitas outras revoluções, algumas das quais pelos mesmos protagonistas que mandam hoje no país, que fizeram as suas revoluções com armas e vimos no que foi dar: foi dar em radicalismos. Nós queremos fazer uma revolução, mas com um método diferente: com diálogo, com paz, com moderação, mas com enorme determinação, sem abdicar daquilo que é a nossa dignidade, a nossa convicção e a nossa esperança num futuro mais risonho para Angola e para os angolanos!

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PUBLICADO  Revista Perspectiva